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Abraham Pinto Z"L: Gratidão e Bondade
Por: Jaime Samuel Benchimol
09/Fevereiro/2010 - 26/Shevat/5770

 
Nesta terça-feira (09/02/2010) Abraham Pinto Z"L, grande benfeitor da comunidade judaica de Manaus nos deixou aos 92 anos de idade, mas as suas boas obras e seus extraordinários exemplos de gratidão e bondade nos servirão de permanente inspiração, lembrança e saudade.

Não conheço pessoa mais grata do que foi Abraham Pinto e gostaria de compartilhar com a comunidade judaica de Manaus um episódio que sempre marcou muito positivamente a relação dele com a família Benchimol.

A família Pinto havia vivido em Manaus nas décadas de 1910 a 1940 aproximadamente, mas o falecimento precoce do pai Salomão Pinto Z"L (em 1918 vítima da gripe Espanhola) e as dificuldades econômicas os fizeram mudar para Israel - então Palestina - onde passaram a viver deixando para trás em Manaus uma propriedade na esquina da Av Sete de Setembro com a Rua Rui Barbosa, no centro da cidade.

Na época, com a depressão econômica e a decadência do ciclo da borracha, os imóveis se haviam desvalorizado a tal ponto que muitos proprietários simplesmente perdiam o interesse e deixavam para alguém "tomar conta" do local já que não se conseguia venda ou aluguel. Passados vários anos da partida da família Pinto para Israel, meu avô Isaac Benchimol Z"L, leu uma publicação nos jornais locais em que o ocupante do imóvel ingressara com uma ação de usucapião pleiteando a titularidade do imóvel dos Pinto. Por carta, meu avô pediu à família uma procuração para representá-los e tentar salvar a propriedade o que felizmente conseguiu.

Como sabemos, com o advento da Zona Franca, Manaus prosperou e os imóveis multiplicaram de valor, especialmente os localizados no centro da cidade. Durante os anos que se seguiram essa propriedade foi herdada pelo Sr Abraham Pinto que usou desde então a receita dos alugueís como fonte de complementação de sua renda para sustentar o seu estilo simples de vida e principalmente para ajudar os outros, virtude que cultivava como poucos vi fazerem pois doava continuamente mais de 50% da sua renda.

Sr Abraham, que nesta época já havia regressado ao Brasil e morava em São Paulo, jamais esqueceu da comunidade de Manaus tendo, dentre muitas doações importantes, ofertado ao Comitê Israelita do Amazonas (CIAM) os recursos para a construção do Centro Adminstrativo Abraham Pinto que abriga ainda hoje a sede do CIAM, a biblioteca e a Escola Jacob Azulay. Adicionalmente, no final dos anos 90 - na administração do Dr. Isaac Dahan e com a atuação do querido Samuel Koifman Z"L - o Sr. Abraham doou o imóvel mencionado ao CIAM mantendo o usufruto dos seus aluguéis enquanto vivesse, pedindo tão somente que o CIAM cuidasse dos seus funerais e da sua sepultura, a ser localizada próxima à de sua mãe, no cemitério Butantã em São Paulo. Esse compromisso, testemunhado pelo diretor de Chevrá Abraham Benmuyal está sendo honrado pela diretoria presidida por Davis Benzecry.

Com a família Benchimol ele manteve um relacionamento de muito carinho durante mais de 60 anos. Como gesto de reconhecimento e gratidão por ter salvado o seu imóvel enviava várias vezes por ano, via aérea, ao meu avô Isaac geléias, tâmaras, figos secos, frutas e legumes frescos - como alcachofra, aipo etc - que eram caros ou difíceis de conseguir em Manaus. Após o falecimento do meu avô ele continuou enviando esses gostosos artigos ao meu pai Samuel Benchimol Z"L e após 2002 passou a enviá-los para mim e para Anne. Assim, por incríveis 60 anos, três gerações da família receberam regularmente essas deliciosas lembranças que sempre recebíamos com alegria e tentávamos sem sucesso retribuir, pois ele sempre dizia que o seu prazer era em dar muito mais do que em receber (esta alías é a definição do amor verdadeiro segundo o psicólogo Erich Fromm). Ainda assim, Anne e eu, após termos jantado três ou quatro vezes com ele nas visitas que fazia a Manaus (ultimamente acompanhado da Sra. Maria Luíza, sua dedicada assistente) descobrimos que ele gostava muito da nossa pimenta Murupi, um dos poucos presentes que relutantemente aceitava receber.

Ao visitar Manaus, fazia contato com a nossa querida chaverá Clara Azulay e usualmente pedia notícias sobre as atividades e sobre os membros da nossa querida Kehilá. Durante os anos que estive na presidência do CIAM, sempre me instigava a aumentar a ajuda às pessoas idosas e necessitadas lembrando de que a velhice já é difícil por si só e pode ser particularmente cruel quando a ela se acumulam doenças e dificuldades financeiras.

Sr. Abraham Pinto Z"L compreendeu como poucos o valor da Tzedaká e o prazer de fazer o bem. Além da comunidade de Manaus apoiou também várias instituições judaicas em São Paulo e Israel e estava permanentemente atento para oportunidades de ajudar seres humanos com merecimento, fossem eles porteiros, garçons ou rabinos. Em nosso último jantar no Hotel Tropical em setembro de 2009 lembro da Sra. Maria Luísa comentar que ele não conseguia ficar um único dia sem ajudar alguém. Quando isso ocorria, antes de dormir ele a chamava e dizia "pegue um dinheiro na minha carteira, desça para a porta do prédio e procure alguém necessitado para ajudar. Só volte quando encontrar..."

Assim será lembrado Abraham Pinto.
 


Abraham Pinto Z'L
Por: David Salgado (Fev/2010)
 
Gostaria de estar com minha comunidade neste momento tão importante e prestar minha homenagem a este grande homem, impossibilitado, porém, o faço através destas breves linhas na esperança que possam ser lidas pelo maior número de correligionários e amigos.

Abraham Pinto, era um homem de bom coração, no sentido mais profundo e verdadeiro que isso possa significar.
 
Por inúmeras vezes fui visitá-lo em seu apartamento, no bairro de Higienópolis em São Paulo, e assim que chegava já podia sentir o tamanho de seu bom coração.

Ao pronunciar o nome ao porteiro, e após breve consulta para ter certeza de que realmente estava sendo aguardado, ele (o porteiro) já abria um sorriso e em breve troca de palavras era possível sentir o carinho que este sentia pelo seu Abraham. Depois o faxineiro do prédio, a empregada dele e até Luiza sua governanta, todos tinham um amor muito grande por ele, por tudo o que ele significava, tamanho era o seu bom coroção.

Assim também, eram os motoristas de taxi do ponto próximo ao prédio na rua Maranhão. Sempre que tomava um taxi seu Abraham ia comigo até o ponto, já pagava a corrida e ainda falava ao motorista: "olha cuida bem dele viu!" E acho que não preciso descrever, o que relatava-me o motorista sobre seu Abraham e suas boas ações, e geralmente a corrida era longa, até Guarulhos onde ia embarcar, e assim mesmo, o animado motorista não conseguia parar de falar de seu Abraham e suas boas ações: "que coração tem esse homem" ele dizia.

Seu Abraham vinha quase todos os anos à Israel. Até dois anos atrás sua irmã ainda era viva. Nesses cinco anos que aqui estou vivendo, com Simone e as crianças, por três vezes tive o prazer de reencontrá-lo. Quando ele estava pra vir, ligava pra perguntar o que eu queria do Brasil, e eu lhe respondia: "só quero que o senhor faça uma ótima viagem". Era para mim um momento ímpar, poder conversar com uma pessoa de tamanha experiência, e enorme coração. A conversa era bem abrangente, muitos assuntos, mas um assunto não poderia deixar de constar em nossos encontros: A Comunidade de Manaus, o Comitê Israelita. Era visível o seu enorme amor por tudo que diz respeito a comunidade de Manaus.

Meu último encontro com seu Abraham, foi também a despedida. Em novembro último, passando por São Paulo, fiquei três dias com ele, hospedado em um apartamento de sua propriedade e que ele pediu para Luiza arrumá-lo só para mim.

Tinha acabado de descobrir um problema sério de saúde; o que fazer, fumou praticamente a vida toda, tinha deixado faziam dois ou três anos. Mas isso não o abalou, não mesmo. Seu Abraham continuava o mesmo e em nossa "despedida" finalmente consegui tirar uma foto dele, nunca tinha deixado, dizia que não gostava.

Sim, seu Abraham continuava o mesmo, e seu último pedido para mim, foi também o que ele escreveu em seu testamento. O coração enorme que tinha queria até o último momento fazer tsedaká, bondade, justiça. E assim o fez.

Que o Eterno D-us Misericordioso, transforme todas as boas ações deste 'tsadik', pois quem faz justiça (tsedaká) é um justo, um tsadik, em 'créditos' que pesarão a seu favor na hora do seu julgamento final e assim ele possa repousar eternamente, na Mansão que lhe é de direito – A Mansão dos Justos.
 

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