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Abraham Ramiro Bentes
Por: Raymundo Serruya
 
Paraense nascido em Itaituba, no rio Tapajós em 1912, descendente de pioneiros hebreus sefaraditas marroquinos que aportaram na Amazônia, onde sua bisavó materna chegou em 1850. Seu pai Ramiro Moisés Bentes, natural de Tanger e sua mãe Estrella Benchimol Bentes, já brasileira nascida em Boim, no meesmo rio Tapajós, estado do Pará.

Abraham Ramiro Bentes cedo viajou para o Marrocos onde em Tanger realizou seus estudos primários na Alliance Israelite Universelle, regressou para Belém com somente sete anos para concluir ali o curso no Ginásio Estadual Paes de Carvalho. Posteriormente, matriculou-se na Escola Militar do Realengo no rio de Janeiro, concluindo curso de oficial da Arma de Artilharia na turma de 1933.

Após mais de 40 anos de serviço militar, tendo se especializado em Artilharia de Costa e Antiárea e sido diplomado pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, foi transferido para a reserva, a pedido, com os proventos de General de Divisão.

Foi casado com Sara Mekler Bentes com quem teve sua amada filha Anna.

Este prezado correligionário, após uma brilhante carreira como oficial superior do Exército Brasileiro, prestou com a edição de um livro “Os Sefaradim e a Hakitia”, uma notável contribuição cultural e histórica na busca das raízes e da memória social e lingüística e um diálogo outrora falado pelos nossos antepassados luso-hispano-marroquinos.

Trata-se de uma obra erudita que versa com profundidade, sapiência e dedicação as origens culturais dos judeus sefaraditas brasileiros e, especialmente, daqueles que vieram para a Amazônia no princípio do século XIX, provenientes de Tanger, Tetuãn, Rabat, Fez e outras comunidades marroquinas, após a sua expulsão de Espanha e Portugal no século XVI.

A obra de Abraham Bentes aborda, na sua primeira parte, a história dos judeus sefaraditas na península ibérica, bem como a sua diáspora para a Holanda, Norte da África, Turquia e Brasil, onde chegaram desde os tempos iniciais da descoberta, havendo participado, ativamente, nos históricos eventos da conquista e colonização portuguesa, inclusive na Amazônia. Na Segunda parte, a sua obra é profundamente original na abordagem do dialeto hakitia, construído ao longo dos séculos por judeus luso-castelhanos, ao tempo da invasão da península ibérica e seu posterior desenvolvimento em Marrocos e outras comunidades da diáspora.

Após a obra pioneira do filósofo José Benoliel sobre esse dialeto, publicada pela Real Academia de Letras da Espanha, o presente estudo de Abraham Bentes constitui uma contribuição ímpar no campo da dialetologia e lingüistica. A par da gramática, fonética, grafia, glossário, procurou fazer também um estudo histórico comparativo e etimológico das contribuições luso-hispânicas e hebraico-marroquinas para melhor compreensão do processo de fusão e do hibridismo lingüístico que a Hakitia representou para os sefaraditas: como forma de sobrevivência e adaptação cultural nos tempos difíceis e cruéis da Inquisição; como instrumento de comunicação e solidariedade grupal durante o longo exílio em terras norte-africanas; como expressão de humor, mímicas verbal e corporal, sátira, anedotas, espanto, raiva, maldição, bendição, alegria e paz.

Como dialeto, a Hakitia, à semelhança do ladino e do iídiche, também abordados pelo autor, constitui um fenômeno linguistico-histórico em extinção, dada a prevalência do hebraico atual, renascido desde a criação do Estado de Israel. Apesar desse processo de perecimento e perda de sua identidade, que refletiu um determinado momento histórico dos grupos sefaraditas, ele permanece vivo apenas na lembrança e na memória dos mais velhos. As novas gerações brasileiras-amazônicas, de origem sefaradita, integradas à nação e a à cultura nacional, dele tomam conhecimento através das estórias e do rico folclore desse irônico linguajar caipira, que um dia floresceu e vicejou nos lares de nossos ancestrais conhecendo e usando, apenas, não mais que uma centena de palavras e expressões residuais para comunicar o gracejo, o senso de humor, a via cômica e a diversão anedótica.

Daí a importância deste paciente trabalho de investigação, pesquisa e reconstrução de um passado histórico para preservar as raízes e a memória da Hakitia como acervo cultural lingüistico, não apenas dos sefaraditas, mas como patrimônio universal da linguagem do Homem, nas suas infinitas formas e variedades de falar, sentir o extraordinário significado da vida e da humanidade. 
 

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