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Em Busca de Minhas Raízes
Por: Yehuda Benguigui
 
Meu pai, Moyses Benguigui Bar Shalom Z´L, teve uma existência quase centenária. Faleceu aos 98 anos, em Setembro de 1986, no mês de Elul, ha 16 anos passados.

Desde meus primeiros anos, cresci escutando ele contar histórias de sua infância e juventude passados no Melah de Salé em Marrocos. Com uma memória prodigiosa que D'us o abençoou, se recordava de detalhes e minúcias acerca da vida em geral da comunidade judaica, suas relações com os mouros, a rotina religiosa, os Rabinos que conheceu, fatos pitorescos que vivenciou e datas, o dia em que saiu do Marrocos, quando chegou ao Brasil e etc.

Quando regressei a Belém em 1969, depois de permanecer três anos na Yeshivá Colegial Machané Israel de Petrópolis, decidi começar a anotar e gravar todas as histórias de família e suas recordações da infância e da juventude. Assim, passei mais de dez anos puxando pela memória dele e anotando, registrando e gravando tudo o que podia.

Algo que sempre me intrigou, era o fato de existir uma barreira de gerações na família Benguigui. De fato, só conhecíamos de nossos ancestrais, ademais de meu pai, uma única irmã que veio para o Brasil, tia Ledicia Benguigui Azulay Z´L, que era casada com tio Jacob Azulay Z´L, durante muitos anos o shaliach tzibur e líder espiritual da comunidade judaica de Manaus. Todos os outros seis irmãos e irmãs foram do Marrocos para Israel. De meu avô, somente tínhamos as histórias de papai...

Meu avô Shalom Benguigui Bar Moshé Z´L, faleceu no ano de 1935, em Salé, no longínquo Marrocos, onde foi enterrado, o que representava para mim um "elo perdido".

Foi assim, que em Agosto de 1992, já residindo nos Estados Unidos, atendendo ao chamado da American Sephardi Federation, Aziza (minha esposa) e eu decidimos participar da fantástica e histórica atividade, em que, relembrando os 500 anos da expulsão dos judeus da Espanha durante a Inquisição, em 1942, se concentraria um grande número de descendentes de judeus sefaradim "expulsados de Espanha". O programa previa uma viagem a Espanha de cerca de 10 dias. Nesse período se visitou a assim chamada "Espanha Judia", ou seja, as principais cidades em que os judeus viveram e deixaram suas marcas indeléveis na cultura e na formação literária desse pais. Iniciando o percurso em Madrid, passando por Córdoba, berço de Rambam, seguindo-se Sevilha e Granada, culminando com Toledo. Em Toledo, cidade incrivelmente mantida com suas características medievais, depois de uma completa visita aos extraordinários recantos históricos, coincidindo com Tisha Beav, nesse ano no dia 9 de Agosto de 1992, se realiza a cerimônia na multissecular "Sinagoga del Transito". Foi aí nesse mesmo lugar que há 500 anos os expulsados de Espanha comemoraram em 1492 seu último Tisha Beav! No dia seguinte, saíram expulsos para outras terras como Holanda, Turquia, Norte da África - Marrocos entre outros países.

Assim, em 1992, 500 anos depois, foi exatamente esse o percurso feito pelos descendentes dos sefaradim. Cada grupo, se dirigiu ao pais que seus que seus antepassados, segundo as tradições familiares, foi parar depois de expulsos pela Inquisição espanhola.

Nos, por conseguinte, no dia 10 de Agosto (10 de Av), fomos ao Marrocos. Tomamos o vôo Madri - Tânger pela Royal Air Maroc.

Escolhemos Tânger, justamente para homenagear o pai de Aziza e a família Serruya em geral. Pois, nos contava o Sr David Jacob Serruya Z´L, que seus pais Jacob e Aziza Serruya Z´L, criaram a família em Tânger e depois foram a Casablanca, de onde vieram posteriormente ao Brasil. Portanto, se tratavam de verdadeiros Megorashim- exilados de Espanha, que se estabeleceram no Marrocos.
Em Tânger, na Medina, no centro antigo da cidade, onde estão o Pequeno e Grande "Zoco", se localizam as instituições históricas judaicas- sinagogas seculares, na rua Sy Aguines, o centro comunitário na Rue de la Liberté, o antigo cemitério onde estão vários chachamim e etc. Circulamos demoradamente nesses lugares, visitando as antigas sinagogas onde os Serruya certamente passaram sua infância e juventude na outrora florescente comunidade judaica de Tânger, do início do século XX.

A próxima parada, Casablanca, para completar o circuito da família Serruya, nos revelou duas realidades - o Melah, antiga área onde os judeus viveram até mediados do século passado com antigas sinagogas monumentos, e o antigo cemitério. A outra, em contraste, foi uma vibrante comunidade, calculada em cerca de 8.000 membros, com rabanut, mikvaót, yeshivah, colél, escolas judaicas de todos os graus, restaurantes e açougues Kasher, museu e arquivo, centro comunitário amplo e bem organizado - enfim, com uma vibrante dinâmica vida judaica, apesar das dificuldades de caráter político e as características do pais.

Finalmente, fomos a outra etapa, de reencontro das raízes da família Benguigui. Os Benguigui, ao contrario dos Serruya, não eram Megorashim. não foram exilados de Castilla. Eram Toshavim - residentes autóctones, que já estavam no país desde tempos imemoriais (*).

De Casablanca fomos a Rabat, a capital do país e em cujas cercanias está a pequena cidade geminada de Salé, divididas pelo Rio Oued Bou Regreg, que desemboca no mar. Atualmente, as duas cidades são unidas pela ponte Moulay Hassan.

(*)- Os Toshavim, foram chamados ironicamente pelos Megorashim, que lá chegaram séculos depois, de "Forasteros". O que certamente era devido ao fato que os mesmos ao não falarem espanhol ou ladino, eram forâneos a cultura daqueles...
Depois de visitar o Melah de Rabat, atravessamos o rio em direção a Salé.
Não tivemos dificuldades em encontrar as portas - "Bab" - que circundam o Melah. Eram exatamente como papai me descrevia. Levei inclusive o desenho que fiz, seguindo as descrições dele.

No Melah, depois de circular demoradamente por todos os recantos, comecei a buscar o endereço da casa de meu avô, onde todos os filhos passaram sua infância e que meu pai se criou, antes de vir ao Brasil. Segundo minhas anotações, era "Impasse Saul, número 2". Mas, depois que os judeus foram maciçamente para Israel, nos fins dos anos 50 e início da década de 60, os nomes das ruas foram modificados. Daí ter sido uma tarefa bem complicada, mas com a ajuda de meu abnegado guia, especialmente contratado em Rabat, encontrei a antiga "Impasse Saul". Pela descrição de papai, consegui chegar a casa. Aparentemente os moradores estavam ausentes, pois apesar de batermos muito, não foi aberta a porta. Como já se estava aglomerando uma pequena multidão com olhares entre curiosos e hostis, nosso guia, "sugeriu" que seguíssemos adiante.

Assim, só consegui fotografar a entrada da casa. No multissecular cemitério, onde estão enterradas milhares de pessoas, e muitos chachamim e dayanim, foi que conseguiria reencontrar o elo distante.
A mais famosa figura enterrada em Salé, é o Rabino Rephael Encaua z'l. Era conhecido como "Hamalach", pois contam que mesmo em vida, estava em um plano espiritual tão alto, que era comparado a um anjo.

Rabi Encaua foi "Gran Raban e Dayan" primeiro de Salé, depois de Rabat e posteriormente de todo o Marrocos. Sua historia, contribuições a cultura e as tradições judaicas do Marrocos e suas obras de "responsa", merecem ser relatadas em outra oportunidade...

È considerado um santo inclusive pelos muçulmanos e seu túmulo é um importante monumento no cemitério de Salé, cuidadosamente mantido pelas autoridades locais. Em Lag Baomer e em sua Nahalah, dia 4 de Av, são organizadas cerimônias de Hilulah, pela Comunidade Judaica a nível nacional, com afluência de descendentes marroquinos de Israel, França, Canada e Venezuela.

Quando chegamos lá, cerca de 3 horas da tarde, havia um grupo no túmulo de Rabi Raphael Encaua z'l e notamos certo alvoroço quando nos aproximamos. É que haviam 9 homens presentes e esperavam avidamente a chegada de mais um para completar o "minian" para a tefilat minchá.

Assim, tive o zechut de rezar a minchá, tendo sido o décimo homem. Ao término, o grupo misto de descendentes de marroquinos vivendo atualmente em Israrel e no Canadá, nos perguntaram de onde éramos . Ao respondermos do Brasil, se surpreenderam - e o que vem fazer judeus do Brasil em Salé? Expliquei que meu pai era oriundo de lá e que meu avô estava enterrado nesse cemitério. Um israelense, me disse então que o antigo zelador do cemitério, por coincidência estava ali e "quiças" ele conhecesse a localização do túmulo de meu ancestral.

Veio então o Sr Sotto, que falava unicamente arbia, assim que o israelense, também fluente em arbia, serviu de interprete. Falávamos em ivrit e ele traduzia ao arbia. Depois das explicações, me indagou de que família e quando disse Benguigui, perguntou de que ramo - de Shalom ou de Messod? Respondi de Shalom, e o tradutor me replicou então - ele disse que sabe onde está o túmulo de seu avô! Disse que seu avô era um chacham e shaliach de Rabbi Encaua!

Saímos atrás do sr Sotto, encurvado em anos, caminhando lentamente entre os túmulos e ele repetindo "Shalom Benguigui", "Shalom Benguigui"... até que depois de cerca de 15 minutos de caminhar, parou e assinalou-me o túmulo.

Eu não pude acreditar- o túmulo de meu avô, com a lápide perfeita e a inscrição clara - Shalom Benguigui Bar Shalom z´l - escrita só em hebraico, como era o costume no Marrocos.
Fiquei arrepiado. O Sr Sotto, já entregando-me um sidur aberto, para que eu zoreasse adequadamente. Foi o "Yoshev Besseter Elion" que recitei com a maior emoção e kavanah em toda a minha vida.

Meu pensamento nesse momento foi de resgate de uma divida a meu pai. Ele nunca teve a oportunidade de regressar ao Marrocos para rever o lugar de seu nascimento e onde passou sua adolescência, bem como para zorear no túmulo de seu pai.

Como eu tive esse zechut, decidi seguir adiante e pesquisar a saga de nossos ancestrais no Marrocos, as cidades que viveram, a gigantesca produção literária rabínica, a história dos chachamim, rabanim e dayanim, fatos pitorescos, costumes e tradições, que fazem em seu conjunto com que o judaísmo sefaradi marroquino tenha características especiais.

Até agora, Aziza e eu, já regressamos cinco vezes ao Marrocos. Sempre visitando cidades e lugares diferentes, buscando documentar, fotografar, registrar fatos e recuperar arquivos, para assim resgatar, como um legado, nosso elo "quase perdido" para as próximas gerações.
 

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