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Mimona, a Noite da Fé
Por: David Salgado
 
Apesar de sempre ter participado dos festejos de Mimona na minha cidade natal (Manaus-Amazonas no Brasil) e depois em Belém, aonde passei a viver antes de fazer Aliah com a minha família, admito que Mimona para mim sempre foi uma incógnita. Dentre todas as comemorações do nosso calendário, era Mimona a que menos informação e compreensão de seu verdadeiro motivo pude adquirir, já que poucos sabiam explicar seus “porquês”. Assim, cresci sem saber maiores detalhes sobre esta noite tão especial.

É por isso que...

Primeiro, o que mais me deixava intrigado era, de onde veio o nome desta festa?

Existem muitas explicações, a mais comum é a que diz que Mimona vem do nome de Rabi Moshe ben Mimon que era o pai de Rambam e que havia falecido exatamente neste dia, no dia de Mimona.

Outra explicação diz que o nome Mimona vem da palavra árabe “mimon” que significa “sorte ou sucesso”, porque acreditam que nesta noite os portões dos céus estão abertos e que Deus recebe toda Oração e todo Pedido, é um dia de muita sorte. É também por esse motivo que na noite de Mimona comemos e decoramos a mesa com coisas que lembram a bênção e que trazem sorte e abundância como o mel, o leite, o trigo, os ramalhetes verdes (espigas de trigo), peixes e coisas doces. O cumprimento mais comum nesta noite é o desejo de “Sucesso e Boa Sorte”.

Uma terceira explicação para esta festa vem do hebraico com a palavra Emuná (Fé) que tem sua raiz bem próxima a palavra Mimona. A primeira Gueulá (Salvação) do povo aconteceu no Egito no mês de Nissan assim também a última Gueulá virá em Nissan. Por isso temos que ter fé que o Messias virá em Nissan e como já estamos no sétimo dia de Pessach, mais da metade do mês já passou e ainda não veio a Salvação, festejamos Mimona para aumentar a nossa fé na Gueulá do Povo de Israel.

Também gostaria de saber porque dessa comemoração no último dia de Pessach? Qual a ligação de Pessach com Mimona?

Apesar de ha séculos Mimona ser comemorada em quase todas as comunidades Sefaraditas, sua origem está nas comunidades judaicas do Norte da África no século 18 e tinha um primeiro nome de Noite da Fé (Leil Emuná).

A saída do Egito é comemorada no dia 15 de Nissan, quando o Faraó após a última praga, a dos primogênitos, liberta os judeus. Não demorou muito e ele se arrepende e começa a perseguir o Povo Judeu. Quando os egípcios chegaram às margens do Mar Vermelho, já era o sétimo e último dia de Pessach. Logo, quando viram Bnei Israel, que os egípcios estavam bem atrás de si e o mar bem a sua frente, pensaram que a saída do Egito tinha sido em vão e que eles retornariam para lá como escravos ou morreriam ali. Mas quando vira o grande milagre, o Mar Vermelho se abrindo eles passarem ao seco e os inimigos se afogarem no Mar, só então acreditaram em Deus e em Moshe seu servo. Um momento de muita fé.

Portanto se prestarmos atenção nos costumes de Mimona veremos que muitos deles têm ligação com o milagre da travessia do Mar Vermelho.

a) Festeja-se Mimona logo após o último dia de Pessach exatamente no dia da Travessia do Mar Vermelho.

b) Costuma-se ir a praia na manhã seguinte a noite de Mimona já que o milagre ocorreu no Mar.

c) Costuma-se colocar um peixe inteiro na mesa de Mimona em lembrança da travessia do Mar que se abriu para a passagem do Povo Judeu.

A tradição de manter a porta aberta em Mimona é porque nesta noite costuma-se visitar e também ser visitado pelos amigos, parentes e todos queiram vir sem necessariamente terem sido convidados. Fazer visita e também esperar que venham a sua casa é para degustar os diferentes sabores das delícias da mesa de Mimona, existiria um motivo melhor do que esse?

Existe uma explicação histórica que diz que como na noite do Seder nossos antepassados no Egito tiveram que fechar suas portas depois de marcá-las para que o anjo da morte não os visitassem, assim em Mimona, após o Pessach, abrimos nossas portas para que a Gueulá possa entrar.

A mesa para Mimona tem um singular preparo e objetivo. Indiferentemente de sua origem, os costumem são aproximadamente esses:

Coloca-se uma toalha branca e decora-se com ramalhetes verdes toda a mesa. Esse costume de decorar a mesa com ramos que geralmente são espigas de trigo é para lembrar o “Korban Haomer”, no segundo dia de Pessach, a oferenda do Ômer (da nova colheita de cevada) era trazida ao Templo Sagrado, em Jerusalém. Alguns costumam acender velas sobre a mesa. Um prato grande e fundo com uma massa especialmente preparada de trigo com óleo e água, essa mesma massa posteriormente serviria para fazer os novos pães. Moedas de prata e ouro são enfiadas dentro da massa na esperança de ver seus pedidos se multiplicarem como a massa que fermenta, alguns costumam colocar seus anéis de casamento e desejar que venha o filho tão esperado em breve e com saúde. Leite, mel, manteiga, frutas secas e doces diversos. O peixe é tradicional na mesa de Mimona, lembra fartura e tem sua ligação com a travessia do Mar Vermelho, alguns costumam colocar peixe vivo dentro de uma bacia com água. E Mimona não é Mimona sem as tradicionais mufletas, pequenas rodelas de massa assadas e banhadas em mel e manteiga.

Para quem pergunta, assim como eu, como é possível fazer todos esses quitutes em tão pouco tempo, entre uma hora após a saída da Páscoa e a chegada dos visitantes, já que em Pessach é proibido ter chametz em casa e muita dessas delícias levam trigo?

Primeiramente, devemos acabar de uma vez por todas com a idéia de que depois do meio-dia já se pode deixar entrar trigo em casa, isso é totalmente errado, estaríamos cometendo o pecado de ter chametz em casa tendo consciência disso em pleno Pessach. No Marrocos, o que acontecia, é que os árabes já conhecendo nossas festas, preparavam as espigas de trigo, o próprio trigo, a manteiga e levavam para vender aos judeus nos “melahs” ao findar o Chag. Com o material em mãos, as donas de casas com impressionante habilidade corriam para preparar seus quitutes. Hoje em dia os judeus na Diáspora não tem muito esse problema pois podem adquirir dos goim sem muita complicação, mas se quiserem, podem fazer como algumas donas de casa fazem em Israel: aqui aonde deveria ser um pouco mais complicado já que não temos o goi, o problema foi solucionado com o preparo de todas as massas necessárias antes de Pessach e vendendo-a ao goi através da “venda do chametz”, logo, uma hora após a saída do Chag, esse material é retirado do lugar que foi fechado antes da Páscoa e pode ser usado para Mimona.

Em Israel os judeus do Norte da África depois que fizeram sua imigração nos anos 50 e 60 continuaram comemorando a Mimona em família. No ano de 1966 aconteceu a primeira tentativa de fazer Mimona de maneira mais ampla e popular. Com os anos, os festejos da saída de Pessach se espalharam por todo o país. Hoje em dia Mimona é comemorada em cerca de sessenta cidades e principalmente na capital em Jerusalém com a presença do Primeiro Ministro, do Presidente e de outros inúmeros políticos. Na verdade este caráter político acabou por tornar a festa de Mimona bem menos original e fez com que perdesse o seu brilho mágico incomum.

De qualquer maneira, seja qual for o seu costume, a sua maneira de fazer e comemorar sua Mimona, não podemos jamais deixar acabar essa festa tão especial e tradicional que outrora pertenceu aos judeus norte-africanos, mas que hoje em dia, é comemorada em todo o Estado de Israel por todos os israelenses, sefaradim e ashkenazim assim como em inúmeras comunidades na Diáspora.

Sucesso e Boa Sorte!
 

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