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Rebi Abraham Hamú Z"L: O legado de Nosso Chacham (Parte I)
Por: Yehuda Benguigui

“... Idealista, enfrentava todas as adversidades para
bem cumprir sua missão, pouco importando se a
remuneração era inferior ao que merecia, estando
sempre disposto ao trabalho, mesmo quando isso o
obrigava a ficar distante de sua família... Foi o guia
espiritual dos judeus do Pará. Ensinou-nos a Torá e a
maneira judaica de viver, dentro da tradição
marroquina. Dono de ilimitados conhecimentos nos
assuntos religiosos, gozava do respeito e admiração de
todos...”            
                                        Marcos Serruya (a)
 
A mente privilegiada do Rabino Abraham Hamú Bar Shemuel zichronó tzadik librachá- era sua marca registrada. A primeira vista, ninguém poderia imaginar que por detraz daquela figura humilde e aparentemente frágil, estava uma mente poderosa, com um raciocínio ágil - treinado nos meandros do Talmud - e com uma gigantesca cultura e erudição, tanto judaica, no terreno da halachá - leis, do midrash e do misticismo judaico, como na cultura geral. Não havia assunto que fosse exposto diante do Rabino Hamú, que ele não tivesse uma opinião formada e desse um depoimento eivado de profunda erudição, acompanhado de suas finas e algumas vezes incompreendidas analogias.

Nas palavras de D. Estrella Gabbay Hamú - sua esposa, companheira e admiradora durante quase 60 anos - o Rebi Hamú, foi um “self made man” - ou seja, ele se fez por si próprio. Sua imensa cultura e o respeitável conhecimento que acumulou em sua profícua existência, foi produto de estudos, leituras e observações, a que incansavelmente se dedicou em toda a sua vida. Ademais, ele dizia: “...tudo o que faças, qualquer coisa que te comprometas a fazer, faze-o com amor...” D. Estrella faz uma pausa em suas nostálgicas recordações e sorrindo completa: “...uma vez nos rimos muito, pois estavam uns marceneiros fazendo um serviço em casa, em dado momento o Rabino Hamú interrompeu o trabalho deles e disse: -“... olha aqui, bate esse prego com amor” - ao que o mestre marceneiro respondeu-  mas como posso “bater” com amor? - ao que Rebí Hamú, completou – “...ahh isso eu não posso ensinar, tem que partir de você, de sua arte e sensibilidade no seu trabalho...”(b, c).

É exatamente por todos estes motivos, que a mesma expressão que o Reverendo Rabino Hamú z’l freqüentemente utilizava para referir-se à comunidade judaica do Pará- “sui generis”- única no gênero(d) - pode ser utilizada para definir a personalidade do próprio Rabino Hamú. Ele foi sem dúvida um exemplar único na combinação de erudição judaica, conhecimento do Talmud, Halachá e do Midrash, com os meandros do misticismo judaico e ao mesmo tempo uma forma de pensamento racional e incrivelmente lógica e pragmática. Aliado a tudo isso uma enciclopédica cultura geral com uma peculiar forma de comunicação cristalina, sempre eivada de analogias e alegorias. Este era o “sui generis” Rabino Hamú.

Era inquieto por natureza. Sempre estava pensando em como podia melhorar algo, aperfeiçoar-se e praticar alguma ação que tivesse impacto no coletivo. Dificilmente pensava nele próprio, somente no próximo, no tzibúr - na comunidade.

Quatro cidades no Marrocos foram importantes na vida do Rebí Hamú: Fez - berço de seu tronco da família Hamú; Casablanca, onde cresceu e se desenvolveu com sua família; Tanger - onde veio buscar sua esposa e constituiu família e Tetuan, onde repousa seu pai- cumprindo uma promessa feita a seu velho genitor, ainda em vida, de enterrá-lo na “Pequena Jerusalém” do Marrocos.

E por coincidência, quatro cidades no Brasil, tiveram grande significado em sua vida: Cametá - sua cidade natal; Belo Horizonte - onde atuou como Rabino durante algum tempo; São Paulo - onde fincou raízes com sua família e onde descansou e Belém - terra de sua devoção, berço da comunidade judaica a que ele dedicou grande parte de sua existência.

Era filho de Samuel Hamú z’l, que nasceu em dois de Dezembro de 1865 – 5626, e era natural de Fez, no Marrocos. O Sr. Samuel era filho de Chalom Hamú z’l e Pérola Marthan Hamú z’l. Chalom era filho de Abraham Hamú z’l e de Aicha Soussan Hamú z’l, ambos de Fez. Pérola, era filha de Joseph Marthan z’l, também de Fez e Esther Athias Marthan z’l, de Tânger. Abraham Hamú z’l de Fez, seu bisavô, foi um grande talmid –chacham - estudioso da Toráh, que viveu em fins do século XVIII a meados do século XIX, e está enterrado em Fez, de quem ademais do nome, o Rebí Hamú herdou a inspiração pelo limud Torah - o estudo das leis judaicas e o cumprimento das mitzvót - preceitos religiosos, como a grande meta de sua vida.

Samuel Hamú z’l, desde criança, era muito inquieto e não tinha receio de aventuras. Aos 13 anos de idade, logo após seus “Tefelins” - Bar Mitzvah, veio de Fez, no Marrocos, ao Brasil, seguindo os mesmos passos de inúmeros de seus compatriotas, estabelecendo-se em Cametá. Aí, cresceu e se desenvolveu. Apesar de natural do Marrocos, e sempre alimentar a expectativa de regressar à terra natal, o Sr. Samuel fez questão de naturalizar-se brasileiro. Foi casado em primeiras núpcias com Abigail...z’l, com quem teve duas filhas, que faleceram precocemente. Samuel chegou a ser um próspero comerciante e dono de seringais. Alguns anos depois que enviuvou, frequentando a casa da família Larrat, em Cametá (mesmo tronco familiar do Sr. Pepe Larrat z’l), chamou-lhe a atenção a jovem Syme Larrat z’l, a qual tinha uma diferença com Samuel de mais de 20 anos, a tal ponto que nessa época o chamava “tio Samuel”. D. Syme nasceu em Cametá, em 13 de Novembro de 1886.

Assim, Samuel e Syme Larrat Hamú se casaram e vieram a ter três filhos:  Shalom Charles Hamú z’l, Alice Hamú Bezecry z’l (que foi casada com o Sr. Messod Jacob Benzecry z’l, genitores de nossos correligionários e ativistas comunitários Sr. Jacob Messod Benzecry e Engo. Elias Messod Benzecry) e o venerando Rabino Abraham Hamú z’l, que nasceu em 14 de Dezembro de 1909, em Cametá.

Foi então que em 1918,  o Sr. Samuel e D. Syme decidiram regressar ao Marrocos, com sua família. O Sr. Samuel vendeu todas as suas propriedades e passou adiante seus negócios, levando consigo todas as suas economias, transformadas em jóias, pedras preciosas e espécie. Durante a longa viagem, lamentavelmernte teve parte de suas posses e economias roubadas. Finalmente chegaram inicialmente na França e daí, foram à Casablanca, onde se estabeleceram. O Rabino Hamú tinha nessa época 9 anos de idade e passou a frequentar o Liceu e a Yeshivá local. O Sr. Samuel era joalheiro. Depois de alguns anos se radicaram em Oran, na Algéria, próximo da fronteira com o Marrocos, para onde levou todo seu estoque de jóias. Em Oran, durante épocas de dificuldades no Marrocos se estabeleciam muitos marroquinos, especialmente oriundos de Tetuan. Depois de alguns anos vivendo na Algéria, regressaram ao Marrocos e desta feita,  voltando a radicar-se novamente em Casablanca.

Depois do Bar Mitzvah do Rabino Abraham Hamú, este saiu da escola que frequentava, e desde então, nunca mais deixou de trabalhar e estudar. Era um autodidata. Consta que nesse mesmo ano, ganhou sua primeira medalha: ao fazer um curso de datilografia - comum nessa época - com poucas semanas estava mais ágil que seu instrutor. Aprendeu praticamente sozinho latim, o complexo árabe literário, a par do espanhol, francês e hebraico, que havia aprendido em seus anos de escola formal.

Paralelamente a sua insaciável sede de saber, se dedicava ao trabalho: foi de tudo, como diz D. Estrella, carpinteiro, eletricista, encanador, sempre fazendo tudo com perfeição, com amor. Durante a II Guerra Mundial, talhou e costurou um casaco para seu filho, que ficou excelente - “parecia de fábrica” - diz D. Estrella, que também completa: - “...quando ele queria, ia para a cozinha e preparava uns quitutes, sinceramente muito melhores que os meus...”  Mas algo que era de especial qualidade, eram seus trabalhos de encadernação. Encadernou todos os antigos livros de Torah de sua Biblioteca e os velhos sidurim - livros de oração do diário e de Shabat, e os machzorim - livros de orações de Yamim Noraim - das grandes festas, impressos em Livorno, herança de seu pai e de seu avô.

Quando se decidiu por dedicar-se aos estudos da Torah e a Rabanut – estudos superiores judaicos com vistas a adquirir a “semichá”- certificação de Rabino - o fez com dedicação total, ademais de se aprofundar nos meandros do Talmud, onde aprendeu a utilizar toda a lógica e argúcia de raciocínio da Guemará, aperfeiçoou-se nas Halachót – Preceitos e depois no Midrash e na Mística Judaica. Não satisfeito só com a vasta  erudição rabínica, enveredou também em aspectos de natureza prática como Schechitá - a matança ritual, da qual era um detalhista e perfecionista, bem como se tornou um categorizado Sofer - escriba ritual, com uma escrita firme, forte e bonita. Consertou inúmeros Sifrei Torah que se encontravam “passul” - com alguma falha, fazia e corrigia mezuzót e pergaminhos de tefelim - filactérios, preparava as Ketubót - contratos dos casamentos que ele realizava e considerava uma grande mitzvah - boa ação, preparar os escritos em hebraico para inscrição de keburót - lápides.

Durante seus anos iniciais na rabanut em Casablanca, também era Mohel - especializado em proceder à circuncisão. Mas depois de algum tempo, quando escutavam suas prédicas ou conferências, não o deixavam mais de convidar para atuar como conferencista, pelo que dedicava grande parte de seu tempo no preparo de seus maravilhosos derushim - predicas.

D. Estrella Gabbay Hamú, sua esposa, nasceu em Tanger, em 1º de Junho de 1919- 5770.  Filha de Menasseh Gabbay z’l, de Gibraltar e de Syme Azulay Cohen z’l, de Tanger. Seu pai, Menasseh Gabbay, por sua vez, era filho de Isaac Gabbay, nascido em Londres, Inglaterra e Myriam Gabbay, de Tanger. Sua mãe Syme, era filha de Yossef Cohen z’l e Estrella Azulay Cohen z’l, ambos de Tanger.

Consta que seu avô, Yossef Cohen, esteve algum tempo no Brasil, nos meados do século XVIII, muito jovem, morou no interior, e começou seus negócios em uma casa comercial em palafitas às margens do rio. Trabalhou duro, economizou muito e ao tornar-se próspero, decidiu regressar ao Marrocos. Esses recursos foram suficientes para construir um belo sobrado, de três andares, com quartos a todos os filhos no andar de cima e toda ajardinada, na Calle de Rebí Yehuda Azancoth, situado no seleto bairro “Marchant”, na parte alta de Tanger.  D. Estrella ainda se recorda dos inúmeros “baús” de madeira de lei, entalhados e de rara beleza, que seu avô Yossef havia trazido do Brasil. Sua avó Estrella Azulay Cohen z’l, vinha de uma família opulenta, já que o pai dela (ou seja o bisavô materno de D. Estrella Hamú),  Sr. Abraham Azulay z’l, era um conhecido comerciante em Tanger, que chegou a possuir um navio de transporte de cargas entre Tanger, Gibraltar, Melila e outras localidades  próximas. Eram inclusive aparentados e possuiam relações comerciais com os “Irmãos Toledano”, que ficaram milionários com a importação de chá da Índia e supriam desse produto a todo o Marrocos nessa época...

D. Estrella teve uma única irmã, Mercedes Gabbay z’l, que faleceu precocemente em Tanger, quando tinha dez anos de idade. Seu pai, Menasseh Gabbay, foi um próspero comerciante em Tânger, com uma casa de comércio de importação e exportação de tecidos finos ingleses, pelo que ia a Londres pelo menos duas vezes ao ano para manter seus negócios. D. Estrella inclusive conserva até hoje, a cidadania inglesa e seu respectivo passaporte britânico.

D. Estrella se tornou órfã precocemente: perdeu sua mãe em 1923, quando tinha apenas 4 anos de idade e seu pai, quando tinha 9 anos, em 1928. A partir de então, viveu cerca  de dois anos em Gibraltar, sob a guarda de seu tio Judah Gabbay z’l, convivendo também com seu outro tio, o famoso  Reverendo Yehoshua Gabbay z’l de Gibraltar. Posteriormente, regressou a Tanger, e passou a ser criada por seus já mencionados avós maternos, Estrella Azulay Cohen z’l e Yossef Cohen z’l, que conseguiram sua guarda no “Beith Din” da Rabanut de Tanger - Tribunal Rabínico da cidade, em processo iniciado assim que D. Estrella se tornou órfã.

Passou toda a sua juventude voltada exclusivamente para os estudos no Liceu onde era contemporânea de Clemencia Bendelak, Yossef Bengió, (ambos netos do eminente Rebí Mordechay Bengió z’l), de Sol Kenafo e de Claude Maní (filho do famoso médico da comunidade, Dr. Maní de Tanger, que é parte do folclore tanjauí - oriundos de Tanger, pela infalível capacidade de diagnóstico clínico que possuía).

Um dia, D.Estrella, estava almoçando na casa de um tio, quando vieram da casa de sua avó chamá-la para ir urgente à casa de sua tia Mary, conhecer uma pessoa, um jovem que estava trabalhando e vivendo em Casablanca e neste momento tinha vindo a serviço à Tanger, fazer uma entrega de mercadorias da empresa dos Bendrihen, com quem trabalhava, na ocasião. D. Estrella, não queria ir, pois realmente estava muito dedicada a seus estudos e não queria “perder tempo”. Com insistência dos parentes acabou indo. O jovem que queriam apresentar era Abraham Hamú. Conversaram um pouco e logo ficou envolvida pelo magnetismo desse jovem, mas em seguida, ele partiu de regresso.

Logo passaram a corresponder-se. Ele escrevendo cartas diariamente. No encabeçamento, palavras carinhosas, etc. e logo entrava em temas de literatura, misticismo, história e cultura judaica, os mistérios da criação do mundo, etc. Depois, passaram a intercambiar livros sobre temas correlatos. D. Estrela conserva até hoje, todas essas cartas guardadas com imenso carinho, envoltas em um grande laço azul.

Casaram-se em Tanger, em uma linda cerimônia, dia nove de Nissan de 5699, correspondente a 19 de Março de 1939, na “Esnoga de Nahon”, en la Calle de la Sinagoga (Esta bela Sinagoga que existe até hoje, está tombada como patrimônio histórico e foi transformada em museu), sendo que tiveram o zechut - merecimento de que a ketubáh fosse lida pelo eminente Rebí Yehuda Azancót z’l acompanhado de Rebi Yamin z’l.

Foram residir em Casablanca, onde o Rabino Hamú z’l estava radicado,  e posteriormente, tiveram a cerimônia do casamento civil em Rabat, no dia 22 de Janeiro de 1940.

Rebí Hamú e D. Estrella tiveram dois filhos. A tradição entre os judeus marroquinos, é de que o primeiro filho deve receber o nome do avô paterno, independente de se está vivo ou não. Mas, quando nasceu seu filho primogênito, o Rabino Abraham ofereceu a D. Estrella o Kavod - honraria, de “nombrar” o menino Menasseh, em lembrança ao pai de D. Estrella, Sr. Menasseh Gabbay z’l, que havia falecido precocemente, conquanto o Sr. Samuel Hamú z’l, pai do Rabino ainda vivia. Esse tipo de grandeza e generosidade, eram característicos do Rabino Hamú.  Posteriormente, nasceu Ruth, também em Casablanca.
 
Nessa época, em Casablanca, o Rabino Hamú desempenhava várias atividades comunitárias e era muito conceituado. Inclusive, foi membro do “Beith Din” em Casablanca, tendo sido contemporâneo nessas funções, do insigne Rebí Shalom Messás z’l, que posteriormente exerceu as elevadas funções de Grão-Rabino da cidade de Jerusalém (e) durante vários anos, até seu recente falecimento.

A educação judaica para as moças, esteve complicada em Casablanca nesse tempo. A Alliance Israelite Universelle tinha sérias restrições.  Só admitiam as crianças filhas das famílias mais carentes, já que os alunos recebiam tudo gratuitamente: enfardamento, livros, alimentação, etc. o que era extraordinário, considerando a enorme carência da maioria da comunidade. Assim, os beneficiários da grande iniciativa de Sir Moses Montefiori - nobre e filantropo judeu inglês que ao visitar o Marrocos decidiu estabelecer a Alliance Israelite Universelle -  tinham que enquadrar-se nesse critério (f). Os Hamú, graças à abnegação ao trabalho do Rabino Hamú, que inclusive sustentava seus pais nessa época, não enquadravam. Dessa forma, sua filha Ruth estudava em um Liceu francês, enquanto o jovem Menasseh ia a uma Yeshivá.

Mas, Ruth, foi vítima de situações constrangedoras e anti-semitas por parte de professores franceses nesse educandário, que queriam coagir aos alunos judeus fazer exames em Shabat e chaguim - feriados religiosos. Assim o Rabino Hamú e D. Estrella, em 1955 decidiram mudar-se à Tanger, onde haveriam melhores perspectivas. Justamente nesse ano foi instalado em Tanger um “Educandário Liubavitch” em convênio com o “American Joint Commitee,” dirigido pelo Sr. Samuel Toledano z’l, e que foi o primeiro Talmud Torah implantado pelo Beith Chabad no Marrocos (atualmente existem várias instituições Chabad em Casablanca, que prestam relevantes serviços na preservação da religião judaica no Marrocos). Assim a  menina Ruth, que nessa época estava com 10 anos de idade, pôde realizar seu sonho de estudar em uma instituição judaica religiosa.

Posteriormente, a direção resolveu que no Instituto Liubavitch estudariam somente meninos, assim Ruth passou um ano na “Alliance” e depois ingressou no único “Beith Yaakov” - Michlalah - escola religiosa só para moças em todo o Marrocos nessa época. Estudou como interna durante alguns anos e só saiu do “Beith Yaakov”, quando concluiu o Curso e se graduou de Professora de Hebraico e Cultura Judaica.

Menasseh, o primogênito, atualmente Rabino como seu pai e ancestrais, fez uma carreira acadêmica e talmúdica brilhante, que nos referiremos proximamente.

D. Estrella e Rebi Hamú, posteriormente herdaram a casa de seus avós em Tanger onde passaram a residir com seus dois filhos.

Em 10 de Agôsto de 1963, faleceu em Tanger o Sr. Samuel Hamú z’l, o pai do Rabino Hamú, com 98 anos de idade.  O Rabino lhe havia prometido, seguindo as instruções do Sr. Samuel, durante sua enfermidade, que o enterraria em Tetuan, próximo dos chachamim e tzadikim que lá repousam. Quando chegou o momento, o Rabino chegou no cemitério e o shej - chefe da Hebrá de Tetuan lhe disse que no lugar que ele pretendia enterrar seu pai, dificilmente haveria espaço. Que ele procurasse, se encontrasse...

O cemitério de Tetuan, que se encontra afastado do centro da cidade, onde ficava o “melah”, é de tamanho colossal. Ocupa toda uma colina, com seus milhares de túmulos, dividido por épocas, desde os “expulsados de Espanha” depois da “Guezerá”- da terrível expulsão de 1492, passando pelo assentamento dos tzadikim, chachamim, etc. O Rabino Hamú z’l, não duvidou um minuto e se lançou a procura do espaço. Ao cabo de quase duas horas de busca, encontrou o que procurava e os hebriim- membros dos socorros espirituais aquiesceram em proporcionar esse espaço e assim o Rebi Hamú, honrou a promessa feita a seu velho pai.

Quando a família Hamú decidiu vir ao Brasil, D. Estrella se recorda que a primeira coisa que o Rabino programou foi ir “zorear”- fazer as preces na keburah de seu pai, bem como zorear os tzadikim e em particular Rebí Ytzchak Ben Ualid, zichronó tzadik librachá - abençoada a memória deste justo. Toda a família se dirigiu a Tetuan, no início do ano 1966. Enquanto faziam suas tefilot - orações e meditações, jogavam água de azhar - de flor-de-laranja na lápide, para melhor terem o zechut - merecimento, da intervenção do tzadik nas esferas celestiais...

Depois, tiveram que decidir sobre a casa. A idéia seria vende-la, mas o momento não era propício para o mercado imobiliário, de uma propriedade dessa magnitude. O preço que se dispunham a pagar era ínfimo em relação ao seu valor. Assim, decidiram deixar em mãos de procuradores confiáveis para alugar e administrar a mesma. Diz D. Estrella que até hoje mantém essa casa em Tanger, nessas mesmas condições...

Assim, vieram ao Brasil. Primeiro, D. Estrella com seus filhos Menasseh e Ruth, em 1966. Providenciou a casa, instalações etc, e posteriormente, em 1967 chegou o Rabino Hamú. Vieram diretamente à Belém e se estabeleceram na Tv. Veiga Cabral. Tive o privilégio, em minha infância de ser vizinho da familia Hamú nessa época. Foi desse período, que meus pais Moyses e Esther Benguigui z’l, passaram a ter uma grande amizade, admiração e afeto por D. Estrella e pelo Rabino Hamú z’l, pelo resto de suas vidas.

A saga do Rabino Hamú e sua familia será coberta numa seqüencia de três artigos. No presente, abordamos sobre seus antepassados, o nascimento no Brasil, o translado da família à terra ancestral e a vida no Marrocos até a volta ao Brasil.

No segundo, acerca de sua primeira shelichut - missão em Belém e suas atividades em São Paulo e Belo Horizonte.

Finalmente, o terceiro artigo abordará sobre seu segundo período de atividades em Belém e seu descanso em S. Paulo, bem como acerca de seus descendentes.

Pensamos, que o grande legado do Rabino Hamú, pode ser resumido nas palavras de D. Estrella, que emocionada, referiu-se em espanhol - “...todos se aconsejavan con el, porque era muy lucido, muy directo y siempre inspirado con palavras de nuestra santa Torah. Que descanse en paz con las almas de luzes de los tzadikim - justos. Amén!”.


Referencias Bibliograficas:

a- Serruya, Marcos – “Nossa Capa: Abraham Hamú z’l”, no “Calendário
Hebráico”, Belém – Pará, Brasil, 1998 -1999/ 5759.

b- Hamú, Estrella Gabbay -  “Entrevistas, depoimentos prestados e revisão de acervo de documentos acerca do Rabino Hamú z’l”, S. Paulo, SP, Brasil, Agôsto 2003.

c- Shalem, Ruth Hamú – “Entrevistas e Depoimentos prestados acerca do
Rabino Hamú z’l”, S. Paulo, SP, Brasil Agôsto 2003.

d-   Salgado, David -  “Editorial; Uma Comunidade Sui Generis”, no “Jornal
Amazônia Judaica”, Edição número 16, Ano II, Belém, Pará, Brasil, Agôsto 2003.

d- Toledano, Joseph – “La saga des families – Les Juifs du Maroc et leurs
Noms”,  Editions Stavit, Tel Aviv, Israel, 1983.

e- Bentes, Abraham Ramiro – “Primeira Comunidade Israelita Brasileira –
Tradições, Genealogia e Pré-História”, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1989.
 


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